Lectio Epistolæ Beati Pauli Apostoli ad Philippenses IV, VI-IX
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Acolher no íntimo o mesmo sentir de Cristo faz o ser reencontrar sua origem, permanecendo presente à verdade que conduz à plenitude.
I. Si qua ergo consolatio in Christo, si quod solatium caritatis, si qua societas spiritus, si qua viscera miserationis
Se existe em Cristo alguma consolação, algum alívio proveniente da caridade, alguma comunhão no Espírito e alguma ternura de compaixão, acolhei interiormente essa realidade que vos une.
II. implete gaudium meum ut idem sapiatis, eamdem caritatem habentes, unanimes, idipsum sentientes
completai a minha alegria, tendo o mesmo sentir, permanecendo na mesma caridade, unidos interiormente e conformes numa única disposição do coração.
III. nihil per contentionem, neque per inanem gloriam sed in humilitate superiores sibi invicem arbitrantes
Nada façais por rivalidade nem por vanglória, mas, na humildade, reconhecei no outro uma dignidade que vos conduz a uma compreensão mais profunda de vós mesmos.
IV. non quæ sua sunt singuli considerantes, sed ea quæ aliorum
Não considere cada um somente aquilo que lhe pertence, mas acolha também aquilo que pertence aos outros, permitindo que a existência se abra à comunhão.
V. Hoc enim sentite in vobis, quod et in Christo Jesu
Haja em vós o mesmo sentir que existe em Cristo Jesus, para que a interioridade seja configurada pela presença daquele em quem a plenitude se manifesta.
VI. qui cum in forma Dei esset, non rapinam arbitratus est esse se æqualem Deo
Ele, existindo na forma de Deus, não considerou como usurpação ser igual a Deus, pois sua dignidade não nasceu da apropriação, mas pertence à verdade de seu próprio ser.
VII. sed semetipsum exinanivit, formam servi accipiens, in similitudinem hominum factus, et habitu inventus ut homo
Mas despojou-se de si mesmo, assumindo a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens e sendo reconhecido em sua condição humana.
VIII. Humiliavit semetipsum factus obediens usque ad mortem, mortem autem crucis
Humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz, descendo à profundidade da existência sem abandonar a verdade de sua origem.
IX. Propter quod et Deus exaltavit illum, et donavit illi nomen, quod est super omne nomen
Por isso Deus também o exaltou e lhe concedeu o Nome que está acima de todo nome, revelando na exaltação a plenitude daquele que se entregou inteiramente.
X. ut in nomine Jesu omne genu flectatur cælestium, terrestrium et infernorum
Para que, ao Nome de Jesus, todo joelho se dobre nos céus, na terra e nas profundezas, reconhecendo a presença soberana daquele em quem todas as coisas encontram seu princípio e seu destino.
XI. et omnis lingua confiteatur, quia Dominus Jesus Christus in gloria est Dei Patris
E toda língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, na glória de Deus Pai, pois nele a existência encontra sua origem, sua verdade e sua plenitude.
Reflexão:
A presença que sustenta o ser não se manifesta apenas no exterior, mas alcança a interioridade onde tudo começa a realizar-se.
Cristo revela que a plenitude não nasce da exaltação de si, mas da profundidade que acolhe a verdade de sua origem.
O instante torna-se fecundo quando o ser permanece inteiro diante daquilo que o transcende e o fundamenta.
Na humildade, a existência não diminui, mas encontra a proporção justa diante de sua origem.
A descida interior de Cristo revela uma profundidade que não é perda, mas passagem para uma manifestação mais plena.
Aquilo que se entrega à verdade não desaparece, mas encontra uma forma mais elevada de permanência.
O caminho atravessa o tempo sem se limitar à sucessão, porque sua realização nasce de uma presença que permanece.
Em Cristo, o ser reencontra sua origem e descobre que toda verdadeira plenitude procede da união com aquilo que o funda.
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No instante presente, Cristo habita o ser, conduzindo-o desde sua origem à plenitude, onde cada momento encontra sentido, presença e realização no Eterno.
XX. sicut semper, et nunc magnificabitur Christus in corpore meo, sive per vitam, sive per mortem.
assim como sempre, também agora Cristo será engrandecido em meu corpo, seja pela vida, seja pela morte.
XXI. Mihi enim vivere Christus est, et mori lucrum.
Para mim, viver é Cristo, e morrer é ganho.
XXII. Quod si vivere in carne, hic mihi fructus operis est, et quid eligam ignoro.
Se, porém, viver na carne me permite produzir fruto, não sei o que escolher.
XXIII. Coarctor autem e duobus, desiderium habens dissolvi, et esse cum Christo, multo magis melius.
Sinto-me dividido entre duas realidades, desejando partir e estar com Cristo, o que é muito melhor.
XXIV. permanere autem in carne, necessarium propter vos.
Permanecer na carne, porém, é necessário para vós.
XXVII. Tantum digne Evangelio Christi conversamini.
Vivei somente de modo digno do Evangelho de Cristo.
Reflexão:
Viver em Cristo significa reconhecer no instante presente a presença que sustenta e conduz o ser desde sua origem.
A existência encontra sua unidade quando aquilo que é vivido se orienta para uma realidade que permanece além das mudanças.
O instante não é vazio passageiro, mas profundidade onde a presença pode tornar-se plena e consciente.
Paulo contempla a vida e a morte sem separá-las daquilo que dá ao ser sua verdadeira medida.
Quando a interioridade se ordena ao Eterno, cada momento recebe uma densidade que ultrapassa sua duração exterior.
A presença de Cristo transforma o próprio viver em realização de uma origem que permanece interiormente atuante.
Assim, o ser não se dispersa diante das alternativas, mas encontra unidade naquilo que reconhece como seu fundamento.
E o instante, acolhido em sua profundidade, torna-se lugar de encontro com a plenitude que já o sustenta.
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Senhor, seja na vida, seja na morte, conserva-nos em tua presença, para que nosso ser encontre em ti sua origem, sentido, eterna plenitude e realização.
VII. Nemo enim nostrum sibi vivit, et nemo sibi moritur.
Porque nenhum de nós vive para si, e ninguém morre para si.
VIII. Sive enim vivimus, Domino vivimus, sive morimur, Domino morimur, sive ergo vivimus, sive morimur, Domini sumus.
Pois, se vivemos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Portanto, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor.
IX. In hoc enim Christus et mortuus est et revixit, ut et mortuorum et vivorum dominetur.
Pois para isso Cristo morreu e voltou à vida, para ser Senhor tanto dos mortos como dos vivos.
Reflexão:
A existência encontra sua verdade quando reconhece que sua origem não se encerra naquilo que aparece diante dos sentidos.
O instante recebe profundidade quando o ser percebe nele a presença daquele de quem continuamente recebe sua existência.
Viver para o Senhor significa deixar que cada momento seja acolhido a partir de sua origem e orientado para sua plenitude.
A sucessão dos acontecimentos não esgota aquilo que acontece no interior de uma pessoa quando sua presença se abre ao Eterno.
Cristo revela que vida e morte pertencem a uma mesma realidade quando ambas permanecem relacionadas àquele que é seu princípio e seu destino.
A interioridade amadurece quando aprende a permanecer no presente sem se dispersar naquilo que já passou ou naquilo que ainda não se manifestou.
Assim, cada instante pode tornar-se manifestação de uma realidade mais profunda, na qual o ser reconhece sua origem e encontra direção.
Pertencer ao Senhor é permitir que toda a existência encontre nele sua unidade, sua permanência e sua plenitude.
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O amor acolhido no instante realiza plenamente o ser, pois nele a verdade da origem se torna presença interior, conduzindo cada vida à plenitude eterna.
VIII. Nemini quidquam debeatis, nisi ut invicem diligatis: qui enim diligit proximum, legem implevit.
Não fiqueis em dívida com ninguém, a não ser no amor mútuo, pois quem ama o próximo cumpre a Lei.
IX. Nam: Non adulterabis: non occides: non furaberis: non falsum testimonium dices: non concupisces: et si quod est aliud mandatum, in hoc verbo instauratur: diliges proximum tuum sicut teipsum.
Com efeito, não cometerás adultério, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás. E, se houver algum outro mandamento, ele se resume nesta palavra, amarás o teu próximo como a ti mesmo.
X. Dilectio proximi malum non operatur. Plenitudo ergo legis est dilectio.
O amor ao próximo não pratica o mal. Assim, o amor é a plenitude da Lei.
Reflexão:
O amor recebido no íntimo ordena o ser e o conduz àquilo que corresponde à sua origem.
No instante presente, o coração pode acolher a verdade que nele se manifesta.
Nada exterior completa aquilo que precisa amadurecer no interior.
Aquele que ama reconhece no outro uma realidade que participa do mesmo fundamento da existência.
A Lei encontra sua plenitude quando deixa de ser apenas mandamento e se torna vida interior.
O instante adquire profundidade quando o ser age segundo aquilo que reconhece como verdadeiro.
A existência alcança sua inteireza quando o amor unifica intenção, pensamento e ação.
Assim, cada instante pode acolher a plenitude que nasce quando o ser permanece unido à sua origem.
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Oferecei-vos inteiramente ao Senhor e permanecei em sua presença, para que cada instante seja consagrado e vosso ser alcance na verdade a plenitude na origem.
I. Obsecro itaque vos, fratres, per misericordiam Dei, ut exhibeatis corpora vestra hostiam viventem, sanctam, Deo placentem, rationabile obsequium vestrum.
Eu vos exorto, irmãos, pela misericórdia de Deus, a oferecerdes vossos corpos como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, como vosso culto verdadeiro, para que toda a vossa existência se torne entrega consciente diante daquele que a sustenta.
II. Et nolite conformari huic sæculo, sed reformamini in novitate sensus vestri, ut probetis quæ sit voluntas Dei bona, et beneplacens, et perfecta.
E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para discernirdes qual é a vontade de Deus, boa, agradável e perfeita, permitindo que o vosso interior seja renovado segundo a verdade que procede dele.
Reflexão:
O ser encontra sua verdade quando reconhece, no presente, a origem que sustenta silenciosamente toda existência.
Cada instante pode tornar-se entrega quando acolhido diante da presença de Deus.
A transformação interior começa quando o coração deixa de viver segundo aquilo que apenas passa.
A renovação do entendimento permite perceber uma ordem mais profunda no interior do próprio ser.
Aquilo que é recebido de Deus amadurece silenciosamente antes de alcançar sua manifestação exterior.
O presente torna-se fecundo quando a pessoa consente em ser formada pela verdade que a habita.
A vontade divina conduz o ser à unidade entre origem, caminho e realização.
Assim, a existência inteira pode tornar-se oferenda viva, plenamente orientada para sua origem e consumada na presença de Deus.
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Tudo é dele, por ele e para ele; nele, o ser encontra sua origem, percorre sua plenitude e retorna ao princípio eterno que o sustenta.
XXXIII
O altitudo divitiarum sapientiæ et scientiæ Dei, quam incomprehensibilia sunt judicia ejus, et investigabiles viæ ejus!
33
Ó profundidade das riquezas, da sabedoria e da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos! Diante desse mistério, a inteligência humana reconhece que a realidade possui uma profundidade que ultrapassa tudo aquilo que pode ser plenamente alcançado.
XXXIV
Quis enim cognovit sensum Domini? Aut quis consiliarius ejus fuit?
34
Quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? O ser humano pode buscar a verdade com toda a sua inteligência, mas encontra diante de Deus uma realidade que o convida à humildade e à contemplação.
XXXV
Aut quis prior dedit illi, et retribuetur ei?
35
Ou quem primeiro lhe deu alguma coisa, para que lhe seja retribuída? Tudo o que existe recebe sua possibilidade de ser daquele que é a origem primeira. Nada possui em si mesmo a fonte absoluta de sua própria existência.
XXXVI
Quoniam ex ipso, et per ipsum, et in ipso sunt omnia: ipsi gloria in sæcula. Amen.
36
Porque tudo é dele, por ele e para ele. Nele está a origem de todas as coisas, por ele sua existência encontra sustentação, e para ele se orienta toda a realidade em seu movimento para a plenitude. A ele seja dada a glória pelos séculos. Amém.
Reflexão
A inteligência contempla o mistério e descobre que a realidade ultrapassa seus próprios limites.
Tudo o que existe recebe do princípio eterno a possibilidade de ser e de permanecer.
A consciência amadurece quando reconhece sua origem sem pretender possuir o mistério.
O instante encontra profundidade quando se abre à presença daquele que permanece.
A verdadeira grandeza nasce quando o ser se ordena segundo aquilo que não passa.
Cada acontecimento pode tornar-se ocasião de crescimento interior e de compreensão mais elevada.
O coração encontra serenidade quando deixa de exigir domínio sobre aquilo que transcende sua compreensão.
Tudo procede da origem, permanece sustentado por ela e encontra nela sua consumação.
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